sábado, 11 de dezembro de 2010

A Experiência de um Jardineiro



"...Bendito seja Deus por criar as flores, seres vivos imóveis que também respiram, se alimentam e ainda decoram o ambiente com tal delicadeza e beleza indescritível..."

Era uma bela manhã de sexta ensolarada, em uma casa simples no interior da cidade. A casa era composta de quatro cômodos: sala, cozinha, banheiro e quarto. No quarto uma TV ligada no noticiário do dia, roupas sujas pelo chão e um macacão jeans meio desbotado pendurado na parede. Na cama se encontrava um homem sonhando com sua infância que vivera. Um criado mudo ao lado da cama suportava um vaso com uma rosa morrendo e um despertador que marcava oito horas e apitava sem parar. O homem despertou-se depressa parecia estar atrasado, vestiu seu macacão, colocou um chapéu para se proteger do sol e saiu apressado com alguns utensílios a qual usava em seu trabalho. A caminho de seu destino, o homem olhava com outros olhos a felicidades das pessoas logo de manhã, o "Bom dia" sincero dos vizinhos, o sorriso e o brilho do olhar de uma dona de casa se despedindo do marido que iria trabalhar. Ele sorriu, e cumprimentava todos por onde passava mesmo não conhecendo-os.

Chegando ao seu destino, ele olhou uma bela mansão, onde se encontrava um lindo jardim, o qual teria de cuidar. Jogou a bolsa com suas ferramentas no chão e apertou a campainha da casa. Uma bela voz feminina o atendeu perguntando quem era e o que queria. Ele respondeu que era o jardineiro que foi contratado para trabalhar na casa. Um estalo de trinca ocorreu no portão que se abriu automaticamente. Enquanto entrava na casa e observava a sua beleza infinita, foi recepcionado por uma mulher muito atraente, ela usava a parte de cima de um biquíni e uma canga na cintura tampando a visão de qualquer homem que tenha bom gosto. A mulher o levou até o jardim, onde ele ficou admirado com a variedade de tipo e beleza das lindas flores que ali se encontravam. Foi-se preparando então para trabalhar, encheu seu regador de agua e foi aguar as flores. Observando-o sentada em um banco no meio do jardim a mulher perguntou ao jardineiro a quanto tempo ele trabalhava nesse ramo. O jardineiro era muito experiente, trabalhava com isso a anos, para ele as flores eram como pessoas. Ele explicou toda sua experiência com flores a ela, que se interessou muito.

Enquanto regava uma margarida ele contava uma lenda, que uma fada alimentava um príncipe com alimentos que continham essa flor, para que ele nunca crescesse e nem perdesse a inocência infantil, isso o fazia lembrar de uma amiga da adolescência que sempre conseguia despertar o seu lado infantil. Ao lado das margarida, se encontravam orquídeas de todas as cores e tamanhos. Quando foi rega-las contou que as orquídeas o fazia lembrar das mães, que sempre querem proteger seus filhos das influências negativas, pois esse é o significado dessa flor no japão. A mulher se sentia cada vez mais entretida com a explicação do jardineiro que olhava as flores como se fosse a primeira vez que admirava.

A tarde foi chegando e dentre as violentas trepadeiras que domavam um canto do jardim, o jardineiro olhou as flores como se estivesse se despedindo. A bela mulher não compreendia tal admiração por apenas flores que só serviam para decorar, talvez os Crisântemos que ali se encontravam dessem uma alegria a mais ao local com suas cores chamativas, mas para ela ainda eram apenas flores. Juntando suas ferramentas e um pouco cansado do vasto trabalho e explicações o jardineiro se despedia da mulher, explicou que voltaria amanhã no mesmo horário. Foi saindo tranqüilamente quando a mulher o chamou a atenção, apontando para algumas rosas que se encontravam no lugar mais belo do jardim. Ele se calou e fechou os olhos. Curiosa, a mulher pergunto se ele se lembrava de algo com elas, qual era sua história e por que o jardineiro nem as tocou. Arrumando seu chapéu suado pelo forte sol que fazia, ele explicou que a rosa o lembrava um verdadeiro amor, o qual sofreu bastante. A beleza da rosa lembrava sua amada, cujo a perfeição e o simbolismo retocavam a face dela perfeitamente em sua mente. E quando ele olhava para os espinhos se lembrava do que sofreu e chorou. Um silencio tomou o local e ele explicou que essa era a representação, sua beleza e perfume simbolizam o amor, e seus espinhos, o sofrimento que ele pode causar.

O homem se virou calado e saiu. A mulher compreendeu, e com tanta sinceridade que lhe foi passada a história, se rendeu a uma leve tristeza. De cabeça baixa e com lagrimas presas, o jardineiro foi chegando em sua casa, entrou e sentou em sua cama. Olhou para rosa já quase morta, pegou um copo de vidro americano com água e aguando a flor ele sorriu.

Um comentário:

  1. As flores trazem em si, a particularidade de uma vida cheia de regalias e desordens....
    Assim também são os afetos... Tentamos podar, mas alguns deles nascem dentro da gente e ninguém pode e nem tem o direito de tocá-las; a exemplo de uma grande amizade, de um grande sonho ou mesmo de um grande amor.
    Talvez, o único que pode por as mãos sobre elas, são aqueles que o plantaram, como diz toda a superstição de que nem todo mundo pode colocar a mão no seu jardim, pois as flores carregam as energias de seus donos.

    Posso afirmar com toda certeza do mundo, que você planta parte do jardim que sou e que busco ser hoje e que só você pode mexer nesses canteiros a que damos o nome de afetos subversivos.

    Você é o jardineiro que Deus concedeu para plantar em meus solos, coisas boas e bonitas. Independentes do tempo, espaço ou situações a que somos obrigados a viver!

    Obrigado pelas palavras, que tornaram-se fecundos em meu coração!

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